Rotina e Cegueira

monkeys-on-bus-stop

Fala meu povo, tudo bem?

Um aviso antes de tudo: o post de hoje é longo..muito longo! Se estiver sem tempo, melhor ler mais tarde haha…mas leia! =)
Esse texto é algo que escrevi em 2006 para um trabalho de Antropologia cujo tema era “Diversidade cultural na Metrópole” (para a mim, foi aí que a idéia do Cooltura Urbana começou a tormar forma). Escrevi sobre algo que sempre fez parte do meu dia-a-dia: falar com estranhos.
Espero que gostem =).

“Tudo isto quer dizer que, chegando ao Rocio, não vi mais ônibus algum ; o empregado a quem me dirigi respondeu :
— Partiu há cinco minutos.
Resignei-me e esperei pelo ônibus de sete horas. (…) A hora marcada chegou o ônibus e apressei-me a ir tomar o meu lugar.
Procurei, como costumo, o fundo do carro, a fim de ficar livre das conversas monótonas dos recebedores, que de ordinário têm sempre uma anedota insípida a contar ou uma queixa a fazer sobre o mau estado dos caminhos.
O canto já estava ocupado por um monte de sedas, que deixou escapar-se um ligeiro farfalhar, conchegando-se para dar-me lugar.
(…)
O meu primeiro cuidado foi ver se conseguia descobrir o rosto e as formas que se escondiam nessas nuvens de seda. e de rendas.”

Cinco Minutos – José de Alencar

ROTINA E CEGUEIRA: O VAI-E-VEM NA METRÓPOLE

Não é preciso citar dados para sabermos que, em uma grande metrópole, todos os dias milhões de pessoas circulam por meio do transporte público. São ônibus, metrôs, trens, lotações. Pessoas pra lá e para cá, cada uma com um, ou vários – e muitas vezes, nenhum – motivos para justificar sua pressa. O jovem que corre atrasado para o seu primeiro dia no novo emprego, a menina que pela terceira vez na semana perdeu a hora para o colégio, o senhor que está ansioso para ver a neta que logo estará aguardando-o no terminal rodoviário. Milhares de rostos formando apenas um: o desconhecido.

Mas como é possível ser desconhecido um rosto que vemos todos os dias? Com certeza é comum à maioria de nós a experiência de vermos os mesmos rostos, nos mesmos lugares, muitas vezes no mesmo horário por um longo tempo e mesmo assim serem para nós eternos desconhecidos. É como se na verdade, ninguém a nossa volta fosse dotado de feições distintas, transfigurando-se apenas em multidão. Uma multidão estranha e desconhecida. Pensando nisso, gostaria de convidar você, meu caro leitor, á levantar uma questão: o que torna desconhecido algo tão familiar a cada um de nós?

Se procurarmos pelo termo desconhecido no dicionário, uma das definições que nos será fornecida é ignorado. Isso nos abre um novo horizonte, nos permite uma nova óptica sobre esse fenômeno, pois para ignorar algo ou alguém é preciso que haja um agente. Ignorar não é algo que não depende de ninguém, que acontece por capricho do acaso. Essa nova óptica nos tira do lugar confortável de meros participantes e nos torna responsáveis por aquilo que a nós é desconhecido. Todos os dias usamos o mesmo transporte, aquele mesmo ônibus lotado de pessoas que não nos representam nada, mas cuja ausência, mesmo que sutilmente, alteraria o nosso dia, seria como uma lacuna na nossa rotina cega. Tão acomodados em nossos lugares no banquinho de nossas vidas, preferimos manter desconhecido o cidadão que nos acompanha todos os dias. Ignorar se tornou um hábito nas grandes metrópoles. Ignoramos as pessoas, ignoramos os acontecimentos que julgamos “corriqueiros”.Ignoramos toda e qualquer coisa esteja abaixo da fina, frágil e pobre camada da nossa visão, julgando-nos satisfeitos com aquilo que nos é fornecido. Diferentemente das pequenas cidades, onde todos se conhecem, preocupam-se – geralmente mais do que deveriam – com a vida do próximo, onde qualquer coisa ou pessoa que não seja familiar salta imediatamente aos olhos, a metrópole se tornou um lugar cheio de pequenos “universos umbilicais”, onde cada um basta a si mesmo e independe das pessoas que estão a sua volta, onde nada é estranho, pois na verdade, tudo o é. Poderíamos atribuir tudo isso à fatores como o frenetismo da nossa rotina, à enorme diversidade cultural que existe na cidade – Para que me preocupar com pessoas tão diferentes de mim? Não passam de multidão. Mas esse pensamento já incrustado em nossas mentes chega a ser contraditório, pois é questionável alojar tantos rostos, tantas vidas, tantas idéias em um termo apenas. Até que ponto somos todos tão iguais? E até que ponto somos todos tão diferentes?

O transporte público é talvez um dos micro-universos mais adequados para servir de cenário a essa discussão. É lá que pessoas teoricamente totalmente distintas umas das outras coexistem, dividindo por algum tempo de seus dias o mesmo espaço. E ainda assim insistimos na tola divisão: eu e a multidão. Como se em tal espaço, não precisássemos interagir, nos relacionar e nos aproximar daquilo que nos é estranho. Mas a partir do momento que nosso olhar ultrapassa essa fronteira e encontra uma brecha de entrada para a idéia de que somos também parte da multidão, o horizonte espraiado por nós idealizado torna-se um terreno cheio altos e baixos, questionável e suspeito. Essa idéia não age por nivelamento, muito pelo contrário, ela desconstrói o rosto uniforme da multidão e nos apresenta centenas de milhares de novos indivíduos pensantes, que assim como nós, têm um motivo para estarem ali, têm um ponto de partida e um destino. Tal idéia pode ser ilustrada com a situação do rapaz que depois de muito tempo decide não mais ignorar a pessoa ao lado tornando-a desconhecida, e resolve dizer “Olá” àquela garota cujas feições já lhe são familiares. Talvez seja nesse momento que deixamos de fato de enxergar alguém apenas como parte da multidão, e o transformamos, ao nosso ver, em indivíduo. Há uma transformação não só no outro, mas em nós também. Foi necessário que primeiramente algo mudasse dentro de nossas mentes, para que através dessa mudança interior houvesse uma metamorfose daquele que antes enxergávamos apenas como um todo, não como parte. A partir daí nos surpreendemos com nossa própria ignorância. Quantas amizades poderiam ter nascido? Quantos relacionamentos teriam surgido? E nada disso se quer tem chance de se tornar possível, pois não queremos dar um passo em direção ao desconhecido, rasgando a cortina e indo de encontro à cegueira que nossa rotina nos impõe.

Por outro lado, nos deparamos com algo que os pensadores vêm chamando de solidão cósmica. Como é possível um indivíduo sentir-se só em meio a uma multidão? Quem de nós nunca se sentiu assim? Nos dias de hoje esse fenômeno tornou-se algo muito mais comum do que imaginamos. A partir do momento que a pessoa abdica da possibilidade de abrir-se ao desconhecido, ela inicia uma jornada rumo àquilo que lhe parece terreno seguro e conhecido dentro dela mesma, enclausurando-se num casulo de solidão e sentimentos de individualidade, mesmo que ela esteja cercada de milhares de pessoas, pois por uma série de possíveis motivos, o indivíduo resolve interpor-se entre ele mesmo e o mundo exterior que o cerca.

Mas seria possível alguém que já adentrou as arestas do desconhecido encontrar-se num estado de solidão cósmica? Albert Einstein tem uma frase que diz: A mente que se abre a uma nova idéia, jamais retorna ao seu formato original. Se juntamente tomarmos por base algo que já foi dito anteriormente, que a atitude de “adentrar a multidão” envolve uma mudança não só do agente, mas do todo no qual ele interage, podemos então afirmar que tal transformação não pode ser revogada. E de fato, ouvindo relatos e refletindo pode-se afirmar que essa mudança de postura e atitude torna-se um hábito, que vem a substituir o antigo hábito de ignorar o desconhecido. Cada pessoa ou elemento desconhecido salta aos olhos do viajante como uma nova possibilidade que se abre, um novo mundo a ser descoberto, examinado e explorado. Um leque de probabilidades que incita cada vez mais o indivíduo a buscar o novo, a tornar o estranho familiar e o familiar estranho, vendo sempre de novo e de novo para achar o novo. Educando seu olhar a perscrutar o relevo daquilo que antes lhe parecia um chapado plano de rostos estranhos sem significado algum. Ultrapassa os limites da experiência imagética e se torna um exercício existencial cuja prática acaba sendo diária. Os bancos do ônibus, do metrô deixam de ser um local apenas de passagem para tornarem-se habitat, berço de longas conversas, lugar onde se pode somar experiências, adquirir novos conhecimentos. Um espaço físico e temporal onde, por sermos todos tão diferentes, acabamos nos tornando iguais…e por sermos tão iguais, acabamos por nos tornar diferentes a partir do momento que deixamos de apenas ver o que nos cerca, para de fato olhar aquilo o qual somos também parte.

É possível fazer um paralelo e enxergar numa simples viagem de ônibus, trem, metrô ou qualquer outro tipo de transporte público, uma viagem dentro de nós mesmos, um novo “Conto da Ilha Desconhecida”. Nos tornamos passageiros de nossos próprios sentidos e impulsos, guiados por aquilo que decidimos e buscamos, cobrados apenas por nós mesmo ou, de maneira permissiva, pela sociedade. No momento em que se decide invadir a multidão tornando-se parte dela – e ao mesmo tempo, resgatando dela indivíduos – não estamos meramente saindo de nossa rotina, estamos assumindo uma nova postura de quem desconfia daquilo que lhe parece uma massa uniforme, daquilo que, sem que percebêssemos, nos foi imposto pela rotina e comodismo. Deixamos de assistir sentados ao espetáculo do dia-a-dia da metrópole para assumirmos nosso papel de protagonistas.

Bom…é isso.
O desenhinho que ilustra esse post foi feito por mim as pressas e escondido na mesa do trabalho ahuaha. Depois scaneio e faço o upload dele com uma qualidade melhorzinha haha.

[atualizado] Haha…refiz a ilustra do post! Melhor agora? [/atualizado]

% Johnny

~ por coolturaurbana em 26 de fevereiro de 2009.

6 Respostas to “Rotina e Cegueira”

  1. que simpática a ilustração! =)

    João… tô virando seu fã, sabia?
    Sério, sem exageros!

    Tudo isso que você escreveu e da citação do José de Alencar, são muito fantásticos e levantam questões reais, cotidianas e ignoradas! Eu acho muito bacana essa relação homem x cidade, ou então homem x multidão! Não sei se te falei, mas eu fiz um trabalho sobre a Avenida Paulista, no 1º semestre, e nisso tudo o que li, me identifiquei e lembrei muito dessa experiência!

    Vejo que estamos num limbo do desconhecido, e não por mal, talvez por ignorarmos nós mesmos, digamos assim. Se eu não quero conhecer o outro, é porque tenho medo (ex.), tenho medo por não me conhecer, não me conheço, por não ver ao meu redor!

    hohoho… acho que viajei horrores!
    =)

  2. Ok, vou ler depois do almoço. rs.

  3. finalmente tive tempo pra parar e ler. aliás, foi ótimo vc ter postado no blog pq eu já leio e comento aqui! 1º de tudo, vc escreve bem heim? =]
    eu fiquei pensando em uma situação que todos os desconhecidos ultrapassam a barreira que tem entre eles e, mesmo sem perceber, tratam os outros desconhecidos como velhos amigos ou…pessoas conhecidas simplesmente. [deu pra entender isso q eu disse? bom..] no ônibus por exemplo: ta todo mundo ali. sem se olhar nos olhos, sem se falar..ignorando totalmente a existência do outro como se ninguém ali existisse apenas eles mesmos. daí, o ônibus bate num carro. POFT! o ônibus da uma chacoalhada, todo mundo se assusta e pronto. essa situação concedeu totalmente o ‘direito’ de cada um falar com o outro como se eles estivessem lá juntos, existindo e se percebendo. todo mundo conversa, ri, xinga o carro, as vezes ajuda o outro que quase caiu no chão por não ter conseguido se segurar…enfim…é preciso toda uma situação dessas, que faça TODO MUNDO passar por ela juntos que as pessoas se percebem. acham que tem algo em comum só por terem passado por um acontecimento assim. poxa..pega o onibus todo dia ou sentar do lado de alguém no onibus não é algo em comum? ser uma pessoa não é algo em comum? eu adoro interagir com esse povo desconhecido. sei perfeitamente quem pega onibus no mesmo horario que eu, e sei se tem alguem que não costuma estar ali. na verdade, a maioria das pessoas sabe mas simplesmente ignora esse fato. acho legal até o simples ato de procurar um bluetooth ligado no onibus para enviar uma imagem para algum desconhecido…enfim..eu amo interagir com pessoas. elas me fascinam. o desconhecido me fascina! fim. quase escrevi um texto do tamanho do seu nesse comentario heim? hhahaa beijao!

  4. Muito bom o texto, a citação de Alencar, o desenho! Tenho que concordar com as coisas que você diz, realmente faz sentido. Mas quebrar esse costume de separar tudo em “eu e a multidão”, como você mesmo disse, é muito difícil. Principalmente prá quem já tem esse costume desde sempre, como eu… Hahaha… :o)

  5. http://putevka.cz.cc/index.html

  6. […] This post was mentioned on Twitter by Cooltura Urbana and maria clara feitosa, maria clara feitosa. maria clara feitosa said: https://coolturaurbana.wordpress.com/2009/02/26/rotina-e-cegueira/ […]

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